Sabemos todos que esta 29ª edição, que abrimos neste exato momento ao público, marca a retomada da Bienal de São Paulo como uma instituição brasileira de grande importância mundial. Este fato notório é algo que já vai ficando para a história desta que é uma das mais importantes mostras de arte contemporânea desde que surgiu há quase 60 anos. Recuperamos a grandeza deste evento no mundo globalizado e veremos nos próximos anos como tal iniciativa foi da maior importância para a cultura brasileira.
Ao cortarmos esta fita, hoje aqui, ultrapassamos a triste fronteira que foi se impondo entre nós, transpusemos os limites de uma precarização que se firmava em torno de nós, na qual acomodaram-se gestores e dirigentes. Nossa sociedade estava diante de um impasse, diante de um tecido social e institucional que já era obsoleto, a olhos vistos, mas que continuava carecendo de novos enxertos de material vivo para sobreviver. Alguns chegaram a profetizar o fim da bienal, outros já buscavam novas funções para este magnífico prédio. A Bienal de São Paulo que hoje floresce nesta primavera brasileira é parte de uma nova época, um marco na reconquista institucional daqueles que são os mais importantes equipamentos culturais brasileiros. Estou muito feliz em ser Ministro da Cultura de meu país e poder ajudar a reconquistar aquilo que gerações nos legaram com seu trabalho pela nossa melhor arte.
Nos dias de hoje a globalização passou a ser uma estratégia de nosso próprio país, uma internacionalização que vem de dentro para fora, tamanha é a importância que o governo do presidente Lula, a sociedade brasileira, nossos empresários e criadores, conquistaram juntos no cenário internacional. Temos uma importância central como território simbólico e estético para a arte contemporânea que é feita no mundo. Podemos dizer que somos um dos principais articuladores culturais da América Latina e um dos quadrantes do planeta no qual a cultura contemporânea adquire balizas.
É nesta situação que estamos constituindo um novo ciclo de presença internacional para a Bienal de São Paulo, no mundo da arte e no mundo da cultura, algo que a tornará cada vez mais e mais importante em todo o mundo conforme iremos evoluindo nesta nova direção. È isto que tem trazido gente de todo o Brasil e gente de dezenas de países pra cá. Nesta semana nos visitaram gestores das principais instituições internacionais, gente do mercado de arte nas principais economias globais, colecionadores de várias nacionalidades e interessados em arte de todos os continentes. Todos estamos aqui com vontade e desejo de que esta inauguração seja a afirmação cultural de um espaço renovado, um lugar inovador para que nossa arte possa conviver com todas as artes e com todas as culturas do mundo de forma generosa e intensa.
Falar em arte brasileira no mundo é hoje algo que passa longe do provincianismo de outrora. Estamos falando de trocas estéticas e diálogos simbólicos que artistas nascidos aqui ou em outros países mantêm com um ambiente cultural que nos é particular e que está passando a ser um dos signos da contemporaneidade que a civilização ocidental vivencia. Penso que nossos artistas têm demonstrado uma maneira experimental, livre, inovadora, criativa e destemida de refletir sobre problemas universais e locais. Esta forma inovadora de ser, ao mesmo tempo que ganha poder no campo do simbólico e nos diferencia como cultura, é também hoje uma importante economia que faz mover a balança comercial e a riqueza de uma nação. Assim como a Moda e o Design brasileiro, a nossa arte é um bem apreciado e demandado por muitos indivíduos das mais diversas cidades que configuram a órbita da cultura atual no globo. Nós do Ministério da Cultura, juntamente com outros parceiros estratégicos, construímos um programa chamado Brasil Arte Contemporânea para garantir esse nível de intercâmbio que o país tem com o mundo.
Vejo que o que acontece aqui nesse diálogo entre curadoria e artistas que propuseram o conceito “arte e política” e que recebeu uma adesão em diferentes direções neste debate promovido por obras e instalações, é uma grande reflexão cultural. Estamos refletindo, desde o modernismo no século passado até os dias de hoje, sem maniqueísmos ou esquemas fáceis, e buscando definir a relação entre uma coisa e outra. Estamos aqui, também agora, tentando repor o sentido vivo da política e o sentido vivo da arte. Assim como os artistas que fazem arte, eu que faço política me vejo como eles diante de um mundo que está se redefinindo a todo tempo, dando outro sentido ao que nós fazemos, requerendo de cada um de nós outras visões de governança, de democratização, de instituições sociais e de poder público, outros modos de ver a política que sejam adequados e atuais para nossa cultura ocidental dos dias correntes.
Ter consciência do que somos parte de um planeta em crise, lugar que aponta hoje o horizonte do possível para o mundo de amanhã, é algo da maior importância, não só para nós brasileiros, também para todos os cidadãos e homens do planeta. Há muito paramos de copiar ou parodiar o que acontecia em outros países ditos centrais, hoje somos também um lugar em que o contemporâneo ganha seus contornos mundiais. Estamos deixando de ser a periferia subdesenvolvida e nos tornamos um ponto do policentrismo mundial que vige. Mas creio que além da euforia é necessário que saibamos o muito que devemos fazer para chegar a uma legítima liderança no novo mundo multipolar e diversificado culturalmente que este novo século traz consigo.
Se nossa cultura permite à arte um espaço de troca privilegiado, sabemos que temos que construir muitos processos simbólicos e práticos e muitas instituições e mudar outras tantas neste país para que façamos justiça ao que a arte que se cria entre nós, de norte a sul, seja de fato um fenômeno de reconhecimento público entre nós e de real projeção internacional. Sem isso, não teremos uma economia da arte e da cultura autonomamente gerida por nossos artistas, curadores, galerias e museus.
Temos hoje um Inhotim que é um dos centros de arte mais importantes do planeta e que inova completamente na maneira de apresentar as obras e propor os espaços no qual a arte é vivenciada coletivamente, criando uma dimensão ambiental única a partir dos conceitos de nosso grande paisagista Burle Marx. Mas temos muitos museus e coleções que precisam ser atualizados e acessíveis a todos os brasileiros e ganhar uma verdadeira importância em meio a nossa sociedade, fazendo com que todos os brasileiros tenham direito ao deleite estético que a arte pode proporcionar e direito a experimentar a arte que é feita e circula por aqui.
Lembro-me que no ano passado, menos de 24 horas depois que abri a Bienal do MERCOSUL, me vi frente a uma tragédia, um incêndio destruía parte do acervo de um dos nossos artistas mais reconhecido no mundo de hoje, um verdadeiro desastre que poderia ser evitado se os museus e as instituições no Brasil tivessem financiamento regular para fazerem algo mais do que as exposições temporárias que hoje são, praticamente, seu principal meio de sobrevivência.
Estamos reformando os mecanismos de financiamento à cultura em nosso país porque chegamos à conclusão de que os modelos atuais são ineficientes e inadequados à nossa riqueza cultural e ao que somos hoje; podemos dizer isso com toda a precisão técnica de quem geriu em oito anos o Órgão de Estado responsável pela execução de políticas culturais no Brasil. Estamos criando e atualizando outros marcos que vão da lei de direito autoral até a de renúncia fiscal, passando por mecanismos de fomento do consumo e de criação de fundos setoriais e fundos privados, para que nossos equipamento culturais e suas instituições públicas venham a conquistar seus novos lugares neste ambiente global de hoje.
Neste últimos anos podemos dizer que temos bons exemplos como a Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre graças ao nosso querido Jorge Gerdau e o MAM de São Paulo graças à nossa querida Milu Vilela que nos apontam caminhos de como é possível um reposicionamento das instituições de arte no Brasil.
Aqui nesta 29ª Bienal de São Paulo tanto eu como Heitor, nosso querido presidente, e também seu time de diretores que são verdadeiros craques naquilo que fazem pela Fundação, estamos aproveitando a presença dos nossos convidados institucionais e dos curadores da América Latina, da Espanha, de Angola, dos Estados Unidos, da África do Sul, do Japão, da Índia, para debater e trocar idéias sobre as instituições de arte e pensando modelos capazes de no futuro garantir que as novas gerações desfrutem e re-dinamizem o legado da arte. São colaborações vindas de diferentes pontos do mundo, e que tornam ainda mais espessa a trama das referências cruzadas que é a construção de uma política cultural para arte de hoje. Cada um desses curadores traz consigo não apenas as referências culturais do seu país de origem, mas o modo como esses países dialogam com a arte do resto do mundo. Se nós queremos ser brasileiros e internacionais, portanto, não devemos ser uniformes ou fechados em nós mesmos, temos que encontrar um espaço em que cada nação traga uma contribuição diferente e única. Esta é a nossa Bienal de São Paulo de hoje.
Neste sentido, ouso dizer, que é impossível separar arte e política. Apesar de tantas interpretações possíveis para definir esta relação.
A Política entendida aqui como a arte da convivência coletiva com nossos impasses e virtudes, mas também a busca coletiva de soluções para os problemas de todos nós. A Política como campo privilegiado das negociações sociais e do exercício de poder compartilhado, como uma arte de exercício do conhecimento e revelação de possíveis mundos.
Por outro lado, temos a própria arte, também, como criação permanente, como força vital no questionamento dos códigos e signos estabelecidos, como parte do corpo simbólico do Brasil. Potência de construção e desconstrução, modo de reconstrução da nossa maneira de “ver” o mundo à nossa volta, mundo que torna-se cada vez mais complexo, carente de sentido, que cada vez mais está sendo “projetado” e planejado anonimamente, sem que possamos decidir como devemos nos portar ou nos relacionar, ou partilhar nossos desejos e opiniões.
A Bienal de São Paulo, hoje nos mostra que a grande arte assim como a grande política é que nos dá aquele instante extraordinário de liberdade e satisfação em que vemos e podemos nos ver com a clareza da primeira vez que enxergamos uma certa coisa e uma coisa certa. Produzimos aqui, com a arte e com a política, a certeza de que aquilo que é criado com sabedoria e inventividade é algo que jamais esqueceremos, nós e todas as gerações que nos sucederão e dividirão conosco esse legado. Como já dizia o poeta Fernando Pessoa, quando a alma não é pequena, tudo vale a pena. Arte e política são aqueles acontecimentos que irão se fixar em nossa memória e que, muitas vezes no futuro, servirão de ponto de referência para avaliar nosso mundo, paradigmas de nossa cultura humana.
Quero agradecer a todos e convidar vocês a desfrutarem dessa nova condição da Bienal de São Paulo.