Na entrevista a seguir, Jorge Larrosa, pesquisador e professor de Filosofia da Educação na Universidade de Barcelona, reflete sobre a experiência com a arte e questiona o papel do mediador nesse processo. O educador integrou o Seminário Internacional Educação, Arte e Política, promovido pelo Projeto Educativo da 29a Bienal nos dias 20 e 21 de agosto de 2010.
Você comentou que o mediador precisa entender algo de arte e também algo sobre o público com quem se relaciona. Na sua opinião, como a relação com a arte pode ser potencializada pelo mediador?
Eu defini assim o saber do mediador, mas para questioná-lo imediatamente. De fato, se o mediador põe em jogo seu conhecimento "sobre a obra", está subordinando o estudante a esse saber que ele tem, e o aluno não. E se põe em jogo seu “conhecimento” sobre o aluno, esse conhecimento será sempre sobre a incapacidade do aluno de acessar a obra. A hipótese que tentei submeter à consideração do público é precisamente a possibilidade de eliminar ambos os saberes, ou seja, a possibilidade de o mediador constituir-se como "mestre ignorante". Só então se poderia suspender a "continuidade entre causa e efeito" sobre a qual versou grande parte de minha apresentação.
Como pensar a relação entre arte e espectador sem que esta seja uma relação subordinada?
Essa relação será sempre subordinada se a questão for “o espectador ajustar-se aos efeitos que a obra quer produzir nele”, sejam eles efeitos intelectuais, emocionais ou de sensibilidade. Uma relação não subordinada é aquela em que tanto o artista, como a obra e o museu renunciam a qualquer intenção determinada e calculada sobre o espectador, isto é, renunciam a "fazer coisas com ele, para ele e sobre ele".
Você define arte como o acontecer de uma determinada experiência. Na sua opinião, o processo artístico acontece primeiramente com o artista e posteriormente com o público ou de modo contínuo, todas as impressões e sensações definindo-se como arte?
A arte não está nem no artista, nem na obra, nem no espectador, mas na experiência, ou seja, no que acontece “entre” a obra e o espectador ou “entre” o espectador e a obra. Tudo acontece nesse “entre”. E esse “entre” é também o que constitui o público, não o público substantivo [el público], mas o público adjetivo [lo público], o acontecer público da obra. A arte, se é que é alguma coisa, só se dá nesse "acontecer em público".
Na sua opinião, para estimular as pessoas a sentir, pensar e falar por si mesmas são necessárias ações políticas individuais e particulares ou também estamos falando de ações governamentais e institucionais?
As pessoas sempre são capazes de sentir, pensar e falar por si mesmas. O único a fazer é torná-las conscientes dessa capacidade que já têm. E isso só pode ser feito por indivíduos, nunca por instituições. Por indivíduos que sentem, falam e pensam por si mesmos, isto é, por indivíduos emancipados. Só um indivíduo emancipado pode emancipar outro. E as instituições políticas não são os lugares mais propícios para acolher indivíduos emancipados.
Que contribuições o Seminário Internacional promovido 29ª Bienal pode trazer para o público e para o debate sobre educação, arte e política?
Cada um tem de exercer seu próprio pensamento, ou seja, decidir por si só o que é arte, o que é política e o que é educação. A única coisa que podemos fazer, nós que temos acesso aos lugares de fala no seminário, é dizer como vemos essas questões nós mesmos. Traduzir em palavras nossas próprias experiências com a arte, a política e a educação, para que cada um que as escuta com atenção contraste essas experiências com suas próprias experiências. Isso é justamente o que para mim significa "pensar em público" ou "falar em público”. Não se trata de falar para um público, mas em público, ou seja, em relação a outras pessoas que, como eu e como qualquer outra, tem a capacidade de sentir, falar e pensar por si mesmo.
Foto: Jorge Larrosa / Denise Adams