Sobre subjetividades e ações políticas
8
set
2010
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Wendelien van Oldenborgh; subjetividade; política; performance

Em seus trabalhos mais recentes, a artista holandesa Wendelien van Oldenborgh vem refletindo sobre as mudanças nas condições de trabalho atuais e seus efeitos na formação de subjetividades contemporâneas, sobre questões relativas à imigração e sobre formas de coletividade e de atitudes políticas. A artista prepara um novo projeto para a 29ª Bienal de São Paulo, no qual pretende continuar suas discussões sobre a dinâmica de construção de subjetividades em ambientes de produção industrial. Nesta conversa, Wendelien fala um pouco de sua produção e dos percursos para desenvolver seu novo filme.

Obra e processo de criação são indissociáveis para você?
Wendelien: O meu processo de criação, ou melhor, de produção, é indissociável da obra. Eu prefiro o termo produção, pois vem de realização no cinema, do próprio fazer e também de produção industrial. Obviamente, os processos mudam de trabalho para trabalho. Mas sempre que eu construo um trabalho, eu olho para coisas que eu posso juntar no momento de produção, como assuntos, fatos históricos, diferentes pessoas. E claro que essa escolha deve produzir algo novo. O processo de produção acontece e não some depois que a obra se realiza. Assim, o conceito de produção é muito implícito na obra.


Você usa as pluralidades culturais como matéria-prima para o seu trabalho. O que te interessa nessas dinâmicas?
W: Eu prefiro não falar sobre identidade cultural. Pois identidade é um conceito definitivo demais e está imediatamente associado a separações. Eu prefiro usar subjetividade, pois sugere construção constantemente em processo, não só em estruturas sociais, mas também pessoais. E eu sempre penso em coisas relacionáveis, em troca.
No meu trabalho, eu procuro pesquisar dentro dessas relações novas formas de posições políticas, que não são reconhecidas, como tais. Eu acho importante porque já somos rodeados por posições muito definidas e padronizadas, e eu me interesso em investigar formas progressivas ou que já foram avant gard de atitudes políticas.
Atualmente, na Holanda, discute-se muito sobre problemas de imigração, especialmente de mulçumanos. E eles foram definidos como uma identidade dentro do país. Mas essas pessoas já estão na terceira geração na Holanda, portanto já são holandeses, com outros valores e informações, sim, mas holandeses como outro cidadão qualquer.
Eu fiz um trabalho que trata da colonização holandesa na Indonésia.. Nas primeiras décadas do século XX, existia uma força nacionalista ali, que já queria quebrar com esse poder. Pedi a um rapper holandês, descendente de marroquino, para ler um texto escrito por um jovem nacionalista da Indonésia, em 1913, chamado “Se eu fosse holandês”. Ele é um artista que canta críticas à Holanda e teve problemas com isso, pois ele denuncia uma situação de marginalidade, mesmo sendo um cidadão holandês, com os mesmos direitos. Quando ele leu “Se eu fosse um holandês”, foi uma atualização de relações que ainda valem. É visível que mesmo com as mudanças da lei, o tratamento social a essas pessoas é outro. Ele é outro! Eu uso essas constatações no meu trabalho, não em destaque, mas mostrando o que ainda acontece.


A situação dessas pessoas holandesas descendentes de outras nacionalidades pode ser considerada como uma zona de indistinção, ou seja, mesmo tendo direitos garantidos pelo país, elas vivem, de uma certa maneira, à parte da sociedade. As idéias presentes nas suas obras vão de encontro ao pensamento do europeu?
W: Eu tento atualizar questões que não são mais discutidas. A tolerância e a liberdade européias não se mostram sempre. A relação com o passado é muito restrita, parece que o que aconteceu foi esquecido. E os problemas parecem ter sido completamente resolvidos, agora são apontados outros problemas. Mas tudo está ligado. Por isso, eu acho interessante reativar essas questões, pois está tudo relacionado. Eu não faço nada de grande, para revoltar ou chocar. Eu prefiro sugerir outras formas de pensar e de se relacionar.

É como um espelho apontado para o europeu?
W: Sim, talvez. Eu acho muito difícil falar sobre o imigrante e o nativo. Para mim, separá-los é um discurso falso. Agora, estão procurando uma identidade holandesa e isso não existe. E o que adianta dizer “eu sou daqui”, “eu sempre fui de lá”? O que isso quer dizer? Estas subjetividades são relações que podem mudar, não são rígidas. Não há um nativo “puro” ou um imigrante “puro”. Claro que quando se imigra, algumas “logísticas” vão junto, um jeito de pensar, de conversar, e hábitos. Nós somos um laboratório racial. Eu não sou ingênua, claro que há opiniões opostas, contradições e diferenças, que, na maior parte, são visíveis em questões relativas à moralidade e sexualidade e que dificultam o relacionamento entre as pessoas. De verdade, há sempre outras influências mescladas. É muito complexo! Mas essa é exatamente a sociedade: um constante negociação entre oposições. Tento não negar estes paradoxos e gosto de sugerir ligações, a partir de situações que eu construo, e ver o que podem gerar.


A subjetividade e o envolvimento dos personagens com as histórias, leituras e performances também são importantes para você. Em que sentido você aglutina esse tipo de contribuição?
W: Eu nunca escrevo, eu gosto muito de realizar colagens com coisas que já existem. Eu prefiro trabalhar sem roteiro, pois o trabalho em si vai gerando o roteiro no momento da produção. O conteúdo deve ser importante para uma troca com os protagonistas. Eu me interesso não só pelas palavras, mas como elas são ditas. Os atores também trazem seus próprios conteúdos para construir alguma relação com os personagens. Convido pessoas que na minha visão podem ter relações. Por exemplo, em Maurits Filme (2008), eu convidei o Edson, um líder comunitário muito carismático, que realiza trabalhos sociais e ligados ao meio ambiente. Eu fiz uma ligação entre ele e o Mauricio de Nassau. Ele me falou como o Mauricio é visto agora, diferente da realidade do passado. Imediatamente, eu vejo conflitos e tensões. Isso me interessa muito. Nesse sentido, os personagens tinham a ver com os “atores”, que eram pessoas que tinham alguma relação sinalizável com a vida dos personagens ou alguma característica. Eu procurava por formas de envolvimento, que vinham por meio de conversas ou com a leitura de textos escritos no século XVII.

Este é um momento colaborativo no seu processo de produção?
W: Esse é um momento de colaboração, de criar junto o roteiro e o papel dos protagonistas. Mas claro que, por fim, sou eu que crio! Eu sou consciente disso, mas ao mesmo tempo, eu não quero a minha voz, eu procuro abrir espaço para outras vozes crescerem. Eu sempre busco descobrir se o que eu desejo fazer é interessante para mim e para a pessoa para quem eu proponho o trabalho. Tudo devia fazer sentido para todas as partes. Todas as negociações fazem parte do trabalho, que não são mostradas na obra, mas estão ali muito presentes. Eu preciso comunicar, negociar. Nada é uma imposição. Uma idéia é proposta e eu preciso receber uma resposta. E quando isso não acontece não vale a pena fazer o trabalho. Até o pagamento, por exemplo, é negociado. Não é só pagar e receber o trabalho em troca. Todos esses momentos são fundadores nos meus trabalhos, independente de onde eu realize, na Bélgica, na Holanda, no Brasil. Essas trocas sempre acontecem. Isso é essencial! São maneiras de lidar com as situações.

No trabalho que você vai realizar para a 29ª Bienal de São Paulo, você está lidando com um universo que envolve mulheres, trabalho e produção cultural. E você escolheu uma fábrica de costureiras para discutir esses assuntos aliados às condições atuais de trabalho. Quais as discussões você quer propor neste trabalho?
W: Eu lido com todas essas questões de uma forma geral, mas estou concentrando esse trabalho com mulheres. Este trabalho inédito é uma continuação de Après la reprise, la prise (2009), no qual se podia ver uma mudança real na produção industrial e na formação das subjetividades femininas em questão.
O fechamento de uma fábrica da Levis, em Paris e na Bélgica, em 1999, me chamou muita atenção. E isso ocorreu num momento muito diferente, pois esses fechamentos ocorreram na década de 1980, e ocasionaram greves, motins, movimentos.
Nessa fábrica, houve um movimento sindical muito forte pelo não fechamento da fábrica. As operárias queriam tanto manter esse trabalho, que propuseram até perder 10% do salário. Eu queria saber como os grupos iam seguir a partir desse fechamento, como elas iam lidar com essa mudança e com as novas condições de sociabilidade e de organização coletiva ou não nos seus novos trabalhos. Um diretor de teatro fez esse estudo antes de mim, começando com uma oficina de roteiro com 25 mulheres que trabalharam nesta fábrica. E essas mulheres tiveram a chance de organizar e elaborar outras perspectivas sobre os sentimentos delas. 5 dessas mulheres ensaiaram e foram convidadas pelo diretor para encenar uma peça, no ano 2000. E a peça foi um sucesso! Essas mulheres se tornaram atrizes por 2 anos e encenaram uma metáfora do seu trabalho. Neste momento, elas se deram conta que tinham uma voz pública. Elas não tinham consciência disso quando estavam na luta, mesmo sendo muito organizadas politicamente. O teatro possibilitou esse entendimento.
Depois eu as convidei para outra experiência. Propus uma situação entre elas e um grupo de estudantes do ensino técnico. Eu queria que houvesse um contato entre duas gerações: as mulheres, que estavam na faixa etária de 50 anos, e os estudantes. Eu filmei esse dia de conversa, pois queria investigar formas de coletividades: a das mulheres, que eram bem articuladas politicamente, e os estudantes que se reuniam de uma maneira bem diferente. E o resultado são takes encenados, com recursos visuais entre o slide show e o cinema. As cenas são editadas a partir de perguntas e temas que eu propus como coletividade e produção industrial. Os grupos trocaram e compartilharam conhecimentos. Idéias sobre teatro, performance, coletividade e trabalho sobrepuseram como camadas e que também se chocaram, pois posições diferentes foram discutidas pelos grupos.
Eu quero saber como esses movimentos se dão aqui no Brasil. Sei que o teatro brasileiro está bem ligado às lutas de classe e que há fábricas que passaram por crises também.  Daí, descobri uma fábrica de jeans, perto de Alphaville. E para mim, Alphaville (Godard, 1965) é um filme muito importante, faz parte da minha bagagem cultural. E eu fiz uma ligação entre esses dois universos. A fábrica usa o condomínio como referência e pertence a uma mulher, que já produziu para grandes marcas e já teve 500 funcionárias. Com a crise, dois anos atrás, ela teve que despedir muitas funcionárias. Para sobreviver, a fábrica só conta agora com 30 costureiras, que produzem para uma loja que funciona na frente da fábrica. Da loja, é possível ver as costureiras, que acabaram se tornando performers, que mostram a produção é feita no local.

O que está norteando as suas expressões e escolhas nesta produção?
W: Eu achei todas essas questões de trabalho, nesta fábrica, bem contemporâneas. Eu pretendo pesquisar mais e ver outras formas de coletividade e de performance no trabalho. Quero saber que sentimentos estão ali, que mudanças aconteceram nas  vidas dessas mulheres. Os códigos do Brasil são diferentes, eu posso não estar tão sensível como eu sou na Holanda. Mas eu quero sentir, ver e me abrir a esses outros códigos. 
Para a instalação de slides que estou construindo, filmei na fábrica e no Teatro Oficina. A estética dos dois lugares é muito similar e o que é muito interessante é que a arquitetura do Teatro Oficina faz pensar que há uma forte relação entre público e artista. As mulheres, que se tornaram atrizes em seu local de trabalho - a fábrica - foram convidadas a se juntar a mim no teatro, onde nós negociamos com essa troca de papéis. É um trabalho baseado em comunicação e em performance.

 

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