A investigação de Fabio Morais percorre os territórios íntimos das noções de tempo, como formas de percepção e lembrança, e se situa principalmente, nas relações entre a imagem e a palavra. O livro é onipresente, como potência de obra, procedimento e método, compondo o discurso artístico de Marilá Dardot. A parceria de Fabio e Marilá teve início quando os artistas revelaram colecionar objetos esquecidos dentro de livros adquiridos em sebos. Disto surgiu Sebo (2007). Cada página desta edição é um fac-símile frente e verso de um desses objetos achados. O livro está de fato impregnado na subjetividade dos dois artistas, tanto que eles criaram a Confrar’ilha de Leitura – uma coleção de romances publicados a partir da década de 1970, que depois de lidos, recebem o carimbo da “confraria”. Longe daqui, aqui mesmo é mais uma criação colaborativa de Fabio Morais e Marilá Dardot. Nesta entrevista, os artistas revelam alguns aspectos do processo de criação do terreiro e das propostas de construção de uma biblioteca para a 29ª Bienal de São Paulo.
O terreiro Longe daqui, aqui mesmo tem como vocação ser um espaço propício à pesquisa e leitura, abrigando coleções de livros e publicações de artista. Como essa proposta foi entendida e transformada por vocês no projeto apresentado? Que critérios dessa proposta impulsionaram o projeto de vocês para o terreiro?
Fabio e Marilá: Pensamos este terreiro como um ponto em um itinerário. A partida corresponde à vinda de livros de várias partes do mundo, impulsionada por uma vontade de contribuição. A chegada acontecerá a cada vez que alguém, no terreiro, pegar um livro e abrir. O que nos impulsiona neste projeto é propiciar que isso aconteça: pavimentar esta estrada para que a cacofonia de livros se materialize, longe daqui, aqui mesmo.
Diante da proposta do terreiro – que pretende materializar-se como lugar na exposição vinculado a sentimentos “utópicos e distópicos” e que se avizinha conceitualmente com obras que fazem referência à criação daquilo que ainda não é, mas que um dia poderá vir a ser, ou, ao contrário, à frustração e ao abandono – que recursos foram pensados para a interação do “visitante” com o espaço construído? Quais os recursos utilizados e intenções para esta construção conceitual e formal?
F/M: O terreiro que propusemos se efetiva em uma progressão de construções, todas elas em estado de porvir. É um espaço feito de tijolos, de afetos e de homenagens, que se apresenta num momento de suspensão.
O visitante é recebido por paredes com tijolos aparentes e vãos ainda sem portas. Essa visão de uma casa (ou vila, ou cidade) sendo construída é o primeiro contato. Quando o visitante entra, percebe algumas paredes revestidas, portas colocadas e cômodos com tapetes. Isto tudo mostra que esse espaço, mesmo em construção, já é habitável. Não é preciso que algo esteja totalmente construído para que sirva de abrigo. A ideia de livro (e também de literatura, de ideias, de palavras) vai sendo apresentada à medida que o visitante percebe que os azulejos e papéis de parede são imagens de capas de livros, assim como os tapetes e as portas.
Quando ele chega à biblioteca, é recebido por uma construção pronta, acabada, abrigando exatamente o que não está nem pronto e nem acabado: o próprio acervo da biblioteca ainda em formação. Ou, ainda, a substância que constitui cada livro: arte. A partir daí, a interação do visitante é a leitura, o folhear, naturais para um livro. E o percorrer algo, que o visitante acabou de fazer no espaço do terreiro, será repetido a cada vez que ele abrir um livro, mas desta vez noutra escala e encontrando-se com outros artistas.
O livro está de fato impregnado na subjetividade de vocês dois. E não é só uma referência forte, mas matéria-prima, método, recurso criativo para o trabalho de vocês. Quais as relações elaboradas entre essas duas linguagens: espaço arquitetônico, que se operacionaliza como casa, e livro? Que referências estão dispostas na elaboração do terreiro?
F/M: Em nenhum momento pensamos que estávamos fazendo arquitetura. Estávamos construindo relações. É claro que arquitetura e construção são palavras siamesas, mas neste caso preferimos a palavra construção ao lado da palavra metáfora. Nossa metáfora é a do canteiro de obras, do incompleto, do que está em processo, do que está aberto. Mais um projeto, uma vontade, do que um edifício.
Nossa escolha para o terreiro foi a de uma configuração que responde muito mais a necessidades orgânicas e imediatas de habitação, ligadas à moradia básica da maior parte da população brasileira, e não a conceitos históricos de arquitetura.
Acreditamos que se nosso terreiro tem uma arquitetura, ela é muito mais complexa e expandida que a da trama de paredes erguidas no prédio da Bienal: há o fato do nosso terreiro tomar emprestado o espaço dos correios, dos aviões, dos carteiros, das malas despachadas em aeroportos, das mochilas carregadas na cabine de aviões, das caixas de sedex, dos porta-malas de carros e ônibus, das cestas de bicicletas, para que cada livro consiga chegar ao Longe Daqui, Aqui Mesmo. Essa arquitetura móvel, em deslocamento e emprestada, é expressa em um dos logotipos de nossa coleção, onde um livro é enviado num balão. Essa viagem é tão importante quanto as paredes erguidas com tijolos, no prédio da Bienal. E a junção disso tudo é que forma a arquitetura do nosso terreiro.
Não somos arquitetos. Pensamos nosso terreiro como metáfora de um espaço em construção, e não como arquitetura. Mais que a relação casa-livro, preferimos falar em tijolo-livro, azulejo-livro, papel de parede-livro, ou seja, elementos de construção.
Dentro do terreiro, há a biblioteca. Uma das coleções de livros que alicerça este acervo é a Confrar’ilha de Leitura, nossa parceria de troca de literatura contemporânea. Mas ela é só o alicerce. O resto da construção desse acervo é feito de contribuição em contribuição, vinda dos quatro cantos do mundo. De livro em livro. De tijolo em tijolo. Gostamos daquela imagem de um caminhão descarregando tijolos que são passados de mão em mão, até chegarem ao lugar onde a parede será erguida.
A maioria das casas brasileiras é pouco estática. Elas são uma cadeia de construções onde o dono seguinte fará mais um quarto, o seguinte do seguinte aumentará o quintal e o posterior ainda transformará tudo num sobrado e trocará os azulejos. Neste projeto, somos os primeiros donos, erguemos os primeiros cômodos e formamos a primeira coleção de livros. A partir daí, acasos trarão livros e um livro levará a outro. Encontros fortuitos, relações subjetivas e coleções sistemáticas conviverão, dividindo estantes e cômodos.
Foto: Livros e publicações de artista, do terreiro Longe daqui, aqui mesmo. Crédito da imagem: Foto Fabio Morais e Marilá Dardot, 2010.