Motivos totêmicos pintados em uma estrutura arquitetônica efêmera. Dito, não dito, interdito é um terreiro que desafiou as atuações do arquiteto Roberto Loeb e do artista Kboco. A parceria para a criação do terreiro, que tem como vocação ser local de encontro próximo à entrada da Bienal, culminou num espaço que integra natureza e construção temporária. Em entrevista, Loeb e Kboco falam da parceria e do processo de construção colaborativa.
Kaboco e Loeb, de que forma o título proposto para o terreiro Dito, não dito, interdito foi entendido? E que interpretações foram suscitadas sobre a proposta do terreiro durante o processo de criação do trabalho de vocês?
Kboco e Loeb: Para nós, o terreiro está imediatamente associado a um espaço aberto e descoberto. É a praça de chão de terra batida, onde tudo pode acontecer. Dança, festa, comilança, candomblé, folia de reis, festa do divino, casamento, batizado, vigília, jogos, e tantas coisas mais. O terreiro, bordejado pelo barraco, pela maloca, é o lugar de eventos das comunidades, da vida em comum, ritual e social. O título Dito, não dito, interdito ficou como um “mantra”, ponto de partida de nossas associações, logo dissolvido, mas presente, no processo da criação do terreiro.
É o primeiro trabalho colaborativo de vocês? Como foi o processo produtivo?
K/L: Foi um processo de integração, no exercício de diálogo conceitual entre o espaço da arquitetura, da escultura e da pintura. Foi um diálogo aberto para desdobramentos e aventuras criativas, na contraposição entre o duradouro e o efêmero.
Kboco, na rua e no museu, você busca negociar com o ambiente ao seu redor. Como foi a experiência de participar da criação de um espaço?
K: Eu já venho buscando e pesquisando formas de criar estruturas para espaços. Mesmo as pinturas que faço em paredes são intervenções em arquiteturas, que podem ser antigas, abandonadas ou construções recentes. Essas intervenções acontecem por dentro ou por fora dos projetos, podem ser também dentro do sistema de artes ou fora dele. De tanto observar e dialogar com estruturas arquitetônicas veio uma vontade natural de também conceber um espaço, com cores, painéis, esculturas e uma infinidade de possibilidades de transposição.
Loeb, você é conhecido por ser um arquiteto humanista, tendo em todas as suas obras o conforto e bem estar das pessoas como objetivos principais. Quais foram os principais aspectos levados em conta na concepção deste espaço de contato e de “contaminação” entre o Pavilhão da Bienal e as áreas de lazer do Parque Ibirapuera?
L: O terreiro, na área externa do pavilhão acomodado na paisagem aberta do parque, por indicação dos curadores, é, de certa forma, a representação da contradição e da ruptura entre dois ideais: espaços duradouros e espaços efêmeros, justapostos durante a realização da 29ª Bienal. Este terreiro reflete de forma compacta e simbólica, o convívio entre os espaços urbanos das cidades brasileiras, numa espécie de colagem arquitetônica entre o centro do poder permanente, e a vida provisória das periferias. É a nossa “polis” representada no micro sistema da Bienal.
Kaboco e Loeb, há um certo apelo ritualístico no projeto do terreiro apresentado por vocês, com a presença de formas como a meia lua, o sol e a pirâmide, entre outros símbolos imbuídos de fortes significados históricos. A estrutura parece remeter a um templo. Qual foi a intenção de vocês ao reunir todos estes símbolos no projeto?
K/L: A fusão de visões pessoais nas imagens, formas, desenhos e cores no espaço deflagrou a concepção da obra que reflete a intuição, o repertório e o sonho dos dois.
Kboco trouxe seu acervo e registro visual de templos e civilizações remotas e eu exercitei no desenvolvimento dos volumes e formas do terreiro a abertura para o ensaio e exploração do espaço arquitetônico, efêmero, simbólico e cênico.
Kboco, o seu trabalho é majoritariamente composto pelo traço, seja com o spray, lápis ou tinta. Por qual percurso o traço ganhou forma e virou volume na concepção do terreiro?
K: É um processo natural que tem a ver com o mesmo percurso que venho buscando. Acredito que tridimensionalizei os elementos já existentes nas minhas pinturas e desenhos, ao mesmo tempo em que aliei formas de composição conectadas, se alternando no terreiro. A cor funciona como elemento final se justapondo entre traços e planos arquitetônicos.
Loeb, há alguma diferença conceitual na concepção de uma obra efêmera como este terreiro, tanto por sua duração limitada como por seu caráter rotativo, em relação a uma obra duradoura?
L: O projeto do terreiro incorpora o conceito do grafite na arquitetura. Não o grafite aplicado na arquitetura, mas a arquitetura efêmera como um “Grafite Arquitetônico”. A vivência e a obra de Kboco, artista urbano, no espaço aberto, no convívio com as tribos da rua, foi para mim, mais uma vez, a confirmação de uma oportunidade de exploração do espaço social arquitetônico da periferia, efêmero, tão característico de cidades brasileiras, e demais cidades contemporâneas dos tempos em que vivemos.
A vida social e comunitária nos espaços de arquiteturas efêmeras de nossas gigantescas cidades, estão a sinalizar a urgente revisão de ideias civilizatórias, que vão na contramão da vida real. A partir dessa visão de integração, o duradouro e o efêmero, passam a estimular um largo campo de experimentação social, estética e urbana.
Kboco, luz e cor são assuntos intrínsecos à pintura, e a sua pintura especialmente denota uma precisão e um cuidado grande com estes fatores. Muitas madeiras são pintadas no terreiro. Há uma preocupação com a cor no conceito de Dito, não dito, interdito?
K: Sim, não tem como me separar da cor e da luz. A cor me persegue, acho. Ela se encontra presente de forma natural e espontânea. Além da cor, nesse caso, temos o fator da luz do sol incidir diretamente no terreiro, que muito me agrada. Durante a noite, as cores usadas vão mudar com a iluminação especial. Essa transformação da luz natural para a artificial na cor vai ser muito interessante.
Kaboco e Loeb, a escadaria lateral da Fundação Bienal foi incorporada como parte do terreiro de vocês. De que forma a arquitetura do prédio da Bienal foi utilizada no projeto (positiva ou negativamente) e quais as estratégias utilizadas por vocês para negociar com este espaço?
K/L: Na concepção e construção do site specific do terreiro, a consideração do contexto, com seus elementos construídos e naturais, fizeram parte de nossa proposta. A escadaria foi incorporada como elo entre os dois níveis do terreiro: o palco como lugar do ritual, e o “PÚLPIT0” na parte superior, como o lugar da voz que comanda o ritual do Dito, não dito, interdito.
O diálogo com a tradição da arquitetura moderna no Parque do Ibirapuera, se fez pela contraposição formal e pela dissonância visual em relação ao Edifício da Bienal, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.