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Exposição individual

Em sua obra, Ximena Garrido-Lecca (1980, Lima, Peru) parte com frequência de um estudo de técnicas e materiais empregados no artesanato, arte e arquitetura ao longo da história peruana. As instalações apresentadas na 34ª Bienal utilizam técnicas ancestrais de cerâmica e a tecelagem, além de materiais como cobre, barris de petróleo, óleo, madeira, arame, pregos e plantas. Um de seus trabalhos mais emblemáticos, Insurgencias botánicas: Phaseolus Lunatus [Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus], de 2017, é uma instalação com estrutura hidropônica em que são plantadas mudas de favas da espécie Phaseolus lunatus. Como as plantas irão crescer ao longo do ano, o público terá a oportunidade de acompanhar diferentes momentos da  transformação da instalação, num movimento que de certa forma simboliza o da própria Bienal, que é inaugurada agora mas irá se ampliando, transformando e problematizando até dezembro. Para Garrido-Lecca, o gesto de cultivar as favas representa uma espécie de re-ativação simbólica do suposto sistema de comunicação da cultura Moche, uma civilização peruana pré-incaica que desenvolveu complexos sistemas hidráulicos de irrigação e que, segundo teorias, valia-se das manchas presentes nessas favas como signos para uma escrita ideogramática.

Outra obra de destaque é a instalação Proyecto país [Projeto país], que integra a série Paredes de progreso [Paredes de progresso], realizada pela artista entre 2008 e 2012, a partir de uma pesquisa sobre anúncios pintados em paredes de adobe na região do Vale Sagrado, no Peru. Erguidos segundo uma técnica construtiva tradicional, frequente pelo território rural do país, esses muros se tornaram suporte para slogans políticos e logotipos partidários, que vão desvanecendo até desbotar por completo, ou até a dissolução das próprias paredes, já que o adobe, quando exposto à intempérie, se desfaz pouco a pouco na paisagem. Proyecto país foi o nome de um pequeno partido político que participou das eleições peruanas em 2006, mas que acabou se retirando do pleito e desaparecendo devido à falta de seguidores.

Para criar a série de fotografias Divergent Lots [Lotes divergentes], Garrido-Lecca fotografou Pucusana, distrito litorâneo da província de Lima, por três anos (2010-2013). A artista documentou uma série de estruturas compostas originalmente por esteiras de bambu e postes de madeira, e que, ao longo dos anos, passaram a incorporar materiais como tijolos e concreto. Tais estruturas temporárias são construídas com o intuito de reivindicar a posse da terra nessas áreas, marcadas, desde a década de 1950, por um grande afluxo migratório de populações que deixam as regiões agrícolas andinas e buscam condições de vida e de trabalho melhores nas áreas de desenvolvimento industrial e urbano. A população migrante ocupa porções de terra e procura formas de sobrevivência frequentemente ligadas a setores informais da economia. O vídeo Líneas de divergencia [Linhas de divergência] documenta um momento recente das ocupações no entorno de Pucusana; as linhas marcadas com giz no deserto dividem terras já registradas em lotes e demarcam novos terrenos.

Carla Zaccagnini, curadora convidada da 34ª Bienal, explica: “começamos a 34a Bienal de São Paulo com esta série de obras de Ximena Garrido-Lecca, obras que podem nos ajudar a enxergar as relações existentes entre a invenção da eletricidade, a extração do cobre, a demarcação da terra, a depredação do solo e a disseminação de povos. Porque sabemos que a arte pode nos dar ferramentas para lidar com momentos difíceis em que outras linguagens nos faltam ou falham”.

A exposição é coproduzida com o CCA Wattis (São Francisco, EUA), que, em 2021, vai receber uma individual da artista como parte das colaborações internacionais da 34ª Bienal de São Paulo.

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