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  • Allan Kaprow e o nascimento do happening
    29 Agosto 2012
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    Responsável por introduzir o happening na arte, o participante da 30ª Bienal (2012), Allan Kaprow, já havia participado da 13ª Bienal (1975)

    Conhecido como o responsável por introduzir o happening no mundo da arte - e por legitimá-lo como "obra de arte" - Allan Kaprow participou da 13ª Bienal de São Paulo em 1975, na mostra Video Art USA, com Nam June Paik, Vito Acconci, entre outros. No entanto, o material do artista encontrado no acervo da Bienal é bem mais antigo, provavelmente reunido por Wanda Svevo quando começou a compilar material para os dossiês de artistas na época da fundação do Arquivo Bienal:

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    Ficha preenchida por Allan Kaprow com foto (1 de maio de 1957)

    Na ficha preenchida por Kaprow, nota-se que até 1957 grande parte das obras do artista eram desenhos e pinturas. Em 1958, aos 31 anos, o artista procurou John Cage para pedir ajuda em relação ao som de seus Environments - peças sonoras que precederam os happenings - e acabou tornando-se seu aluno na New School of Social Research, no curso chamado Experimental Composition, com Dick Higgins e outros que, como Kaprow e Cage, também integrariam o grupo Fluxus.

    Os trabalhos realizados no curso de Cage são o que Kaprow denominou de "protótipos para os happenings", pois ainda que houvesse muita experimentação sonora aliada a componentes visuais, ainda não existia um nome que abarcasse aquela nova forma artística que questionava o sistema da arte, aspirava à integração do binômio "arte-vida", e convidava o público a fazer parte da obra.

    Em outubro de 1959, Allan Kaprow inaugurou a Galeria Reuben em Nova York, após o fechamento da Hansa Gallery que havia sido entre 1957 e 1959 palco de trabalhos experimentais dos alunos de Cage. Kaprow aceitou o convite de Renné Miller e Anita Reuben para ser consultor da programação da galeria que nascia com a vocação de ser um "centro de energia" – mais que uma galeria de arte. A inauguração da galeria foi também o nascimento do happening, com a série que veio a ser considerada a mais famosa de Kaprow: 18 Happenings in 6 Parts.

    O convite para este happening consiste em uma peça gráfica que, quando aberta, vira pôster . Se fechada, é uma carta que, ao mesmo tempo que instigava os convidados a participarem, dando pistas do que iria acontecer nos seis dias do evento, pedia que ajudassem a financiar o projeto. Definitivamente, Kaprow foi um precursor.

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    18 Happenings in 6 Parts: frente e verso do convite-carta-pôster-declaração de Allan Kaprow
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    Detalhe do texto do convite. Traduzido a seguir
    As ações não significarão nada claramente formulado até onde o artista tem conhecimento. Pretende-se, no entanto, que todo o trabalho seja íntimo, austero e de alguma maneira de curta duração - Allan Kaprow

    "Há três ambientes para esse trabalho, cada um diferente em tamanho e sensação. Os ambientes são quase transparentes. Não importa onde a pessoa esteja, ela estará sempre atenta ao que está acontecendo no outro ambiente. Um espaço tem luzes vermelhas e brancas alinhadas ao alto, como um estacionamento de carros usados parece à noite. O outro tem luzes azuis e brancas. O terceiro tem um globo azul pendurado no centro. Há duas colagens murais grandes, algumas luzes de Natal coloridas vistas por trás de uma parede e duas fileiras de holofotes. Cinco espelhos de aumento estão colocados ali. Em alguns momentos pode-se olhá-los. Cadeiras – entre setenta e cinco e cem –estão arrumadas por toda a parte onde os convidados deverão sentar-se. Os convidados trocarão de lugar de acordo com cartas numeradas. Cada convidado sentará uma vez em cada espaço. Alguns convidados também atuarão. Slides serão mostrados. Sons gravados em fitas cassetes, produzidos eletronicamente, sairão de quatro caixas de som. Dali também poderá ser ouvida uma colagem de vozes. Haverá som produzido ao vivo. Palavras serão ditas. Ações humanas ocorrerão distintamente, de modo simples. Ainda, haverão atores não humanos. Eles serão um brinquedo dançante e duas construções sobre rodas. A mesma ação nunca acontecerá duas vezes. As ações não significarão nada claramente formulado até onde o artista tem conhecimento. Pretende-se, no entanto, que todo o trabalho seja íntimo, austero e de alguma maneira de curta duração. Estes dezoito happenings acontecerão nos dias 4, 6, 7, 8, 9 e 10 de outubro às 20h30. Quem simpatiza com a liberdade de expressão do artista, que gosta da experiência inerente às ideias avançadas, que admira o direito do artista – ou melhor, a obrigação – de apresentar sua visão irrestrita ao mundo tem a obrigação especial de gentilmente apoiar moral e financeiramente a vanguarda. Embora apoiado até o momento por válidas contribuições, o evento sofrerá um grande deficit a não ser que seja prontamente e generosamente apoiado por ? você. Somente a confiança do artista no seu apoio fez com que esse evento fosse possível. Mande a sua contribuição – $2 – $5 – $100 – imediatamente: é necessário. (Nenhuma contribuição será solicitada na performance). Admissão somente por reserva antecipada. Escreva: The Reuben Gallery, 61 4th Avenue, New York 3, Nova York; Telefone WA 9-8558. Hoje!"

    Fernanda Curi Fernanda Araujo Curi é Arquiteta e Urbanista, Mestre em Museologia. Atualmente desenvolve a pesquisa "Parque Ibirapuera - 60 anos (1954-2014) Símbolo urbano, metáfora da urbanidade" no programa de Pós Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU USP e trabalha como Pesquisadora no Arquivo Wanda Svevo da Fundação Bienal de São Paulo.