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  • Armando Reverón, Oramas e a Bienal
    11 Julho 2012
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    Curador da 30ª Bienal (2012) e curador convidado da 24ª Bienal (1998), Luis Pérez-Oramas, dedica-se a pesquisar a obra de seu conterrâneo, o artista venezuelano Armando Reverón

    O curador geral da 30ª Bienal, Luis Pérez-Oramas, tem uma história de longa data com a Bienal de São Paulo. Em 1998, na 24ª Bienal, com a curadoria de Paulo Herkenhoff, Oramas foi um dos curadores convidados em um dos três segmentos da mostra, o Núcleo histórico: antropofagia e histórias de canibalismos.

    O núcleo contou com 25 curadores e ocupou o terceiro andar do pavilhão com obras de Van Gogh, Hélio Oiticica, Francis Bacon, Alfredo Volpi, Tarsila do Amaral, Alberto Giacometti, Henri Matisse, entre outros. Oramas foi o responsável por organizar a sala especial de seu conterrâneo, o artista venezuelano Armando Reverón. Desde 1988, Oramas se dedica a pesquisar a obra de Reverón, sendo autor e curador de inúmeras publicações e exposições sobre o artista.

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    Armando Reverón aos vinte anos. Fotógrafo desconhecido.

    Armando Reverón nasceu em Caracas em 1889. Com talento precoce para a pintura (começou a pintar por volta dos sete anos) ingressou na Academia de Belas Artes de Caracas e completou seus estudos na Europa. Viveu em Madri e Barcelona, onde teve aulas com o pai de Pablo Picasso, com uma breve passagem por Paris.

    Retornou definitivamente à Venezuela em 1915 e cinco anos mais tarde resolveu deixar a vida urbana e "ausentar-se do mundo da arte", estabelecendo-se na Praia de Macuto, no mar do Caribe. Viveu recluso em uma cabana feita de pedra, madeira e palha, onde passou o resto de sua vida pintando a paisagem local e as musas que encontrou por lá - como a índia Juanita, com quem se casou.

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    Reverón com Juanita em seu rancho, conhecido como "El Castillete". ©Victoriano de los Rios, c. 1949. Col. FGAN
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    Reverón pintando o retrato de Luisa Phelps. Ao pintar, apertava fortemente a cintura. Não usava camisa para que a cor do tecido não interferisse na obra e tampava os ouvidos para conseguir se concentrar ©Alfredo Boulton, 1934 
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    Reverón com as bonecas que criava e que serviam de modelos para suas pinturas. ©Victoriano de los Ríos, c. 1950. Col. FGAN | Imagens fotográficas extraídas do livro Reverón (1889-1954), editado pelo Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia)

    A luz brilhante da região teve influência direta em sua obra, como revela Oramas na Folha de São Paulo, em 1998: "Reverón bebeu a luz equatorial e a devolveu como paisagens, numa antropofagia da luz".

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    Luz tras mi enramada, (1926) de Armando Reverón

    "Entre 1920 e 1933, sua pintura alcança uma forma extrema na síntese de meios para a representação da luz, beirando modalidades monocromáticas com predominância de brancos." (Oramas, projeto curatorial da 24ª Bienal).

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    Maja-mujer acostada (1936) de Armando Reverón
    Todos os quadros são pintados num tecido muito rústico e alguns foram costurados por ele em vários pontos. Ele pintava a tela com uma fúria imensa, até rasgá-la. A costura acaba se integrando ao quadro - Luis Pérez-Oramas

    "Entre 1936 e 1939, Reverón realizou uma série de obras de grande formato, nas quais as temáticas das banhistas e das "majas" [jovens] permite uma articulação entre os problemas estruturais da representação da luz e o âmbito teatral que foi construindo-se ao seu redor: objetos escultóricos, bonecas de pano, arquitetura dramática de uma solidão e uma obsessão próximas à excentricidade, embora sutilmente coerentes com a descoberta da materialidade de sua obra". (Oramas, projeto curatorial da 24ª Bienal).

    A reclusão e excentricidade do pintor evoluíram gradativamente para uma esquizofrenia e o artista "chegou ao fim da vida nos labirintos de uma doença depressiva que muitas vezes o levou a uma reclusão psiquiátrica" (Oramas, projeto curatorial da 24ª Bienal).

    Importante ressaltar que o legado do pintor não chega a uma centena de telas, pois a maior parte de suas pinturas dissolveu-se na luz e no sal caribenhos, por usar materiais não convencionais e extremamente frágeis. Como Oramas comenta no jornal O Globo em 1998: "Todos os quadros são pintados num tecido muito rústico e alguns foram costurados por ele em vários pontos. Ele pintava a tela com uma fúria imensa, até rasgá-la. A costura acaba se integrando ao quadro".

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    Marina, (1944) de Armando Reverón

    "Nestas grandes obras do final dos anos trinta, a paleta reveriana se escurece [...] a luz, sempre presente, se reduz a um chicote fulminante que se agita em meio a melancolia do mundo." (Oramas, projeto curatorial da 24ª Bienal). Reverón é considerado o mais importante pintor venezuelano da primeira metade do século 20, e o conjunto de sua obra é visto por historiadores como evento inaugural da arte moderna do país. Essa questão da modernidade é central no fascínio que Reverón desperta, e que Oramas explica em seu projeto de curadoria na 24ª Bienal: 

    A diferença mais palpável entre meu novo mestre Goya e meu professor mais velho, Moreno Carbonero, é que a pintura deste acaba no quadro, terminando-se precisamente no lugar onde começa a moldura. De Goya, ao contrário, algo permanece flutuando em minha retina - Armando Reverón (c. 1949). Dossiê do artista.

    "Por que pensar em Reverón, que jamais pretendeu tal modernidade, que jamais concebeu sua obra desde uma gestão reflexiva ou conceitual? Talvez por duas razões: porque muitas de suas melhores obras alcançam um grau extremo de síntese, aproximando-se a qualidades 'gestuais e monocromas', análogas às da pintura moderna; porque este efeito formal de sua obra não se desligou jamais de uma relação com a natureza equatorial, com as qualidades da atmosfera e da luz natural no âmbito que escolheu para viver e fazer a sua obra. A "modernidade" não surgiria em Reverón – nem tampouco em boa parte do nosso continente – por uma decisão em distinguir o conceitual do natural, o intelectual do orgânico, o espiritual do corporal como âmbitos separados. A 'modernidade' surgiria em Reverón – assim como em boa parte do nosso continente – como efeito, muitas vezes não intencional, de uma aproximação orgânica e corpórea ao mundo e as coisas."

    Em palestra preparatória da 30ª Bienal, Oramas reiterou o seu fascínio sobre essas "modernidades involuntárias". Falando de Reverón como um artista moderno não intencional, comparou-o ao brasileiro Arthur Bispo do Rosário. Ambos não assinaram nenhum "manifesto" ou "programa de modernidade", como o fizeram a maioria dos artistas modernos. "A modernidade sempre foi um projeto inacabado, uma utopia [...] na America Latina, tem relação com sistemas políticos autoritários". E daí surge a intenção: "eu tenho que ser moderno". Oramas conclui que este é um dos nossos desafios hoje, que emergirá nas poéticas da 30ª Bienal: "Quais são essas modernidades involuntárias, como continuar sendo moderno, precisamente no registro da modernidade que acontece além da intenção?".

    Armando Reverón faleceu aos 65 anos, em 1954, um ano antes da sua primeira participação na Bienal de São Paulo. No catálogo da 3ª Bienal (1955), uma homenagem póstuma: "De especial interesse é o conjunto do recém-falecido Armando Reverón, o mais estimado, admirado e acatado pintor da Venezuela deste século".

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    Retrato e autorretrato de Armando Reverón, em recorte de revista não identificada.
    Fernanda Curi Fernanda Araujo Curi é Arquiteta e Urbanista, Mestre em Museologia. Atualmente desenvolve a pesquisa "Parque Ibirapuera - 60 anos (1954-2014) Símbolo urbano, metáfora da urbanidade" no programa de Pós Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU USP e trabalha como Pesquisadora no Arquivo Wanda Svevo da Fundação Bienal de São Paulo.